O Último dos Moicanos: "Elogio ao amor " - Miguel Esteves Cardoso

quinta-feira, 20 de março de 2008

"Elogio ao amor " - Miguel Esteves Cardoso

"Há coisas que não são para se perceberem. Esta é uma delas. Tenho uma coisa para dizer e não sei como hei-de dizê-la. Muito do que se segue pode ser, por isso, incompreensível. A culpa é minha. O que for incompreensível não é mesmo para se perceber. Não é por falta de clareza. Serei muito claro. Eu próprio percebo pouco do que tenho para dizer. Mas tenho de dizê-lo.
O que quero é fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.
Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo". O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas.
Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "está bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?
O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso "dá lá um jeitinho sentimental". Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar. O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto.
O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende. O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser.
O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem. Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado do que quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir.
A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a Vida inteira, o amor não. Só um minuto de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também."
Miguel Esteves Cardoso

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8 Comments:

Blogger Diogo said...

Miguel Esteves Cardoso está enganado. Quando ele fala do amor de ontem, fala do amor mágico da juventude. O amor de hoje, já de uma certa idade, tal como há 50 anos atrás, é o companheirismo que não chateie muito.

Quando ele fala em termos de presente e passado, está a falar de uma existência pessoal (juventude – meia-idade), não de duas épocas históricas.

quinta-feira, março 20, 2008 9:40:00 da tarde  
Blogger DarkMorgana said...

Boa escolha!
Adoro este texto do MEC!

Beijos

quinta-feira, março 20, 2008 10:37:00 da tarde  
Blogger cris said...

Mas dói como o caraçasssssssssssssssssssssssssssssssss!!!

No enanto não troco por nada. :)


beijoca laroca!

Óptima escolha!


Boa Páscoa tra vex! Até lá se comeres uma amêndoa por cada vez que te desejar boa Páscoa, ganhas cárie em todo o dente. Não há-de escapar um.

sexta-feira, março 21, 2008 12:12:00 da manhã  
Blogger cris said...

Este comentário foi removido pelo autor.

sexta-feira, março 21, 2008 12:12:00 da manhã  
Blogger Apache said...

Discordo, Diogo. Não acho que MEC se refira à juventude mais irreverente e a uma idade mais madura. Talvez a paixão, mais “explosiva” evolua para o amor mais “acomodado”… Neste aspecto cada caso (entenda-se cada relação) é um caso. Acho que o MEC se refere mesmo a duas épocas (históricas) distintas e à actual tendência para o conformismo e o excesso de racionalidade que tende a reduzir a paixão, ao sexo, à camaradagem, e a “possíveis” vantagens económicas.

Beijo, Morgana.

Se dói, Cris!
“Até lá se comeres uma amêndoa por cada vez que te desejar boa Páscoa, ganhas cárie em todo o dente. Não há-de escapar um.”
Pois… Principalmente com duas amêndoas por comentário :)
Beijocas.

sexta-feira, março 21, 2008 4:07:00 da manhã  
Blogger Metódica said...

O amor e a paixão não têm idade, aparecem quando querem e sem avisar =)

Adorei o texto, é lindissimo.

sexta-feira, março 21, 2008 2:22:00 da tarde  
Blogger Apache said...

Olá Metódica, obrigado pela visita.

sábado, março 22, 2008 4:00:00 da manhã  
Blogger Cleopatra said...

Recebi por mail também Tenho-o lá pronto para ser atirado para o Blog
Subscrevo na íntegra o texto do Miguel.

segunda-feira, março 24, 2008 6:27:00 da tarde  

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