O Último dos Moicanos: Fracassos da democracia portuguesa - Clara Ferreira Alves

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Fracassos da democracia portuguesa - Clara Ferreira Alves

A crónica já tem quase dois meses mas permanece actual. «Não admira que num país assim emerjam cavalgaduras, que chegam ao topo, dizendo ter formação, que nunca adquiriram, que usem dinheiros públicos (fortunas escandalosas) para se promoverem pessoalmente face a um público acrítico, burro e embrutecido. Este é um país em que a Câmara Municipal de Lisboa, desde o 25 de Abril distribui casas de ‘renda económica’ - mas não de construção económica - aos seus altos funcionários e jornalistas, em que estes últimos, em atitude de gratidão, passaram a esconder as verdadeiras notícias e passaram a “prostituir-se” na sua dignidade profissional, a troco de participar nos roubos de dinheiros públicos, destinados a gente carenciada, mas mais honesta que estes bandalhos. Em dado momento a actividade do jornalismo constituiu-se como o ‘verdadeiro poder’. Só pela sua acção se sabia a verdade sobre os podres forjados pelos políticos e pelo poder judicial. Agora contínua a ser o ‘verdadeiro poder’ mas senta-se à mesa dos corruptos e com eles partilha os despojos, rapando os ossos ao esqueleto deste povo burro e embrutecido. Para garantir que vai continuar burro o grande ‘cavalia’ (que em português significa cavalgadura) desferiu o golpe de morte ao ensino público e coroou a acção com a criação das ‘Novas Oportunidades’. Gente assim mal formada vai aceitar tudo e o país será o pátio de recreio dos mafiosos. A justiça portuguesa não é apenas cega. É surda, muda, coxa e marreca. Portugal tem um défice de responsabilidade civil, criminal e moral muito maior do que o seu défice financeiro, e nenhum português se preocupa com isso, apesar de pagar os custos da morosidade, do secretismo, do encobrimento, do compadrio e da corrupção. Os portugueses, na sua infinita e pacata desordem existencial, acham tudo “normal” e encolhem os ombros. Por uma vez gostava que em Portugal alguma coisa tivesse um fim, ponto final, assunto arrumado. Não se fala mais nisso. Vivemos no país mais inconclusivo do mundo, em permanente agitação sobre tudo e sem concluir nada. Desde os Templários e as obras de Santa Engrácia, que se sabe que, nada acaba em Portugal, nada é levado às últimas Consequências, nada é definitivo e tudo é improvisado, temporário, desenrascado. Da morte de Francisco Sá Carneiro e do eterno mistério que a rodeia, foi crime, não foi crime, ao desaparecimento de Madeleine McCann ou ao caso Casa Pia, sabemos de antemão que nunca saberemos o fim destas histórias, nem o que verdadeiramente se passou, nem quem são os criminosos ou quantos crimes houve. Tudo a que temos direito são informações caídas a conta-gotas, pedaços de enigma, peças do quebra-cabeças. E habituámo-nos a prescindir de apurar a verdade porque intimamente achamos que não saber o final da história é uma coisa normal em Portugal, e que este é um país onde as coisas importantes são "abafadas", como se vivêssemos ainda em ditadura. E os novos códigos Penal e de Processo Penal em nada vão mudar este estado de coisas. Apesar dos jornais e das televisões, dos blogues, dos computadores e da Internet, apesar de termos acesso em tempo real ao maior número de notícias de sempre, continuamos sem saber nada, e esperando nunca vir a saber com toda a naturalidade. Do caso Portucale à Operação Furacão, da compra dos submarinos às escutas ao primeiro-ministro, do caso da Universidade Independente ao caso da Universidade Moderna, do Futebol Clube do Porto ao Sport Lisboa Benfica, da corrupção dos árbitros à corrupção dos autarcas, de Fátima Felgueiras a Isaltino Morais, da Braga Parques ao grande empresário Bibi, das queixas tardias de Catalina Pestana às de João Cravinho, há por aí alguém quem acredite que algum destes secretos arquivos e seus possíveis e alegados, muitos alegados crimes, acabem por ser investigados, julgados e devidamente punidos? Vale e Azevedo pagou por todos? Quem se lembra dos doentes infectados por acidente e negligência de Leonor Beleza com o vírus da sida? Quem se lembra do miúdo electrocutado no semáforo e do outro afogado num parque aquático? Quem se lembra das crianças assassinadas na Madeira e do mistério dos crimes imputados ao padre Frederico? Quem se lembra que um dos raros condenados em Portugal, o mesmo padre Frederico, acabou a passear no Calçadão de Copacabana? Quem se lembra do autarca alentejano queimado no seu carro e cuja cabeça foi roubada do Instituto de Medicina Legal? Em todos estes casos, e muitos outros, menos falados e tão sombrios e enrodilhados como estes, a verdade a que tivemos direito foi nenhuma. No caso McCann, cujos desenvolvimentos vão do escabroso ao incrível, alguém acredita que se venha a descobrir o corpo da criança ou a condenar alguém? As últimas notícias dizem que Gerry McCann não seria pai biológico da criança, contribuindo para a confusão desta investigação em que a Polícia espalha rumores e indícios que não têm substância. E a miúda desaparecida em Figueira? O que lhe aconteceu? E todas as crianças desaparecida antes delas, quem as procurou? E o processo do Parque, onde tantos clientes buscavam prostitutos, alguns menores, onde tanta gente "importante" estava envolvida, o que aconteceu? Arranjou-se um bode expiatório, foi o que aconteceu. E as famosas fotografias de Teresa Costa Macedo? Aquelas em que ela reconheceu imensa gente "importante", jogadores de futebol, milionários, políticos, onde estão? Foram destruídas? Quem as destruiu e porquê? E os crimes de evasão fiscal de Artur Albarran mais os negócios escuros do grupo Carlyle do senhor Carlucci em Portugal, onde é que isso pára? O mesmo grupo Carlyle onde labora o ex-ministro Martins da Cruz, apeado por causa de um pequeno crime sem importância, o da cunha para a sua filha. E aquele médico do Hospital de Santa Maria, suspeito de ter assassinado doentes por negligência? Exerce medicina? E os que sobram e todos os dias vão praticando os seus crimes de colarinho branco sabendo que a justiça portuguesa não é apenas cega, é surda, muda, coxa e marreca. Passado o prazo da intriga e do sensacionalismo, todos estes casos são arquivados nas gavetas das nossas consciências e condenados ao esquecimento. Ninguém quer saber a verdade. Ou, pelo menos, tentar saber a verdade. Nunca saberemos a verdade sobre o caso Casa Pia, nem saberemos quem eram as redes e os "senhores importantes" que abusaram, abusam e abusarão de crianças em Portugal, sejam rapazes ou raparigas, visto que os abusos sobre meninas ficaram sempre na sombra. Existe em Portugal uma camada subterrânea de segredos e injustiças, de protecções e lavagens, de corporações e famílias, de eminências e reputações, de dinheiros e negociações que impede a escavação da verdade. Este é o maior fracasso da democracia portuguesa!»
Clara Ferreira Alves, no "Expresso"

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6 Comments:

Blogger Humberto Coelho said...

Inventam artigos e não pedem desculpas aos visados, quer ao Dr Mário Soares, quer à suposta autora que - sabe-se lá com que interesses - inventaram à pressão???

Onde está a responsabilidade Democrática desta gente??

É muito mau, sob diversos pontos de vista, quando bloggers não possuem outros argumentos senão recorrerem a invenções.

sábado, junho 06, 2009 6:57:00 da tarde  
Blogger Apache said...

Caro Humberto Coelho, Antes de mais, obrigado pela visita.
A maioria dos textos deste blogue são da minha autoria, o que não inviabiliza que veicule opinião publica com a qual me identifique (ainda que por vezes não totalmente), quando isso acontece, obviamente cito o autor. Por isso, lamento, mas não percebi o seu comentário. Pedir desculpa a Mário Soares? Porquê se o artigo não o referencia? E a Clara Ferreira Alves? Não foi ela que escreveu este artigo? Não haverá alguma confusão da sua parte? Circula por e-mail um artigo sobre Mário Soares, atribuido à jornalista Clara Ferreira Alves (alegadamente publicado no “Expresso”, onde escreve), que a própria já desmentiu ter escrito.
Este texto foi difundido recentemente por centenas de blogues, vários deles escritos por militantes de vários partidos políticos (desde o BE ao PSD). Alega que é falso?
Confesso que raramente leio o “Expresso”. Este texto foi-me enviado (por fonte que tenho por credível) em formato ‘jpg’ (suposta digitalização), como sendo de uma página da revista “Única” do jornal “Expresso” se a memória me não falha, do inicio de Janeiro, ou eventualmente do final de Dezembro do ano passado. Mas como actualmente tudo se falsifica, se me fizer chegar algum desmentido da jornalista (sobre o conteúdo deste texto, obviamente) publicá-lo-ei.
Um abraço.

segunda-feira, junho 08, 2009 3:07:00 da manhã  
Blogger Andreu Vallès said...

Este artigo não foi obviamente escrito pela Clara Ferreira Alves. Basta lê-lo e conhecer minimamente o que a autora escreve. É uma diarreia mental qualquer, sem grande interesse.

terça-feira, junho 23, 2009 1:34:00 da tarde  
Blogger Apache said...

Olá Andreu, remeto-o para a leitura do meu comentário acima (em resposta ao do Humberto Coelho). Acrescento ainda que o conteúdo do texto está (em minha opinião) em linha com várias intervenções da autora no programa da SIC Notícias, “Eixo do Mal” .

segunda-feira, junho 29, 2009 1:26:00 da manhã  
Blogger Ricardo said...

Caro Apache,
Hoje, pela enésima vez, recebi o texto a que se refere nesta caixa de comentários, denominado «Momentos de Lucidez», sobre Mário Soares e supostamente publicado por Clara Ferreira Alves no Expresso.
Ora acontece que o autor desse texto fui eu. Publiquei-o pela primeira vez no meu blogue pessoal e a seguir no blogue onde então escrevia, o 5 Dias. http://5dias.net/2009/01/12/momentos-de-lucidez/
É com algum desagrado que vejo que, depois disso, já foi publicado mais de mil vezes na blogosfera e quase sempre atribuindo a autoria a Clara Ferreira Alves. O desagrado da escritora, ainda assim, deve ser maior do que o meu.
Assumo tudo o que escrevi nesse post e, dois anos depois, continuo a reafirmá-lo.
Desculpa o desabafo.

Abraços.

Ricardo Santos Pinto

sexta-feira, dezembro 10, 2010 3:07:00 da tarde  
Blogger Apache said...

Obrigado Ricardo, pelo esclarecimento prestado, quer a mim quer aos comentadores: Humberto Coelho e Andreu Vallès.
Já agora, obrigado também pelo endereço do texto “Momentos de Lucidez” que, diga-se, é um excelente texto.

sábado, dezembro 11, 2010 4:31:00 da manhã  

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