O Último dos Moicanos: A importância de se chamar… Calisto?

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

A importância de se chamar… Calisto?

«“Se abrissem a cantina da Assembleia da República à noite, eu ia lá jantar. Eu e muitos outros deputados da província. Quase não temos dinheiro para comer.” Foi com esta pungente imagem de representantes da nação a mendigar uma malga de sopa que o deputado Ricardo Gonçalves chamou a atenção para o flagelo da pobreza que grassa entre os deputados, que “são de longe os mais atingidos na carteira” pelos cortes salariais da função pública. Só faltou confessar que às vezes tem de dormir numa paragem de autocarro, coberto de jornais. O que explicaria a falta de fluência e informação. Compreende-se que uma pessoa não goste de ler o cobertor que vai usar à noite. É inegável que os deputados vivem com dificuldades. E não é de agora. Por exemplo, quando há tempos protestaram contra a proibição de desdobramento de um bilhete de 1.ª classe em dois de classe económica, já era pelos apertos económicos que enfrentavam. Queriam o desdobramento não para viajarem acompanhados, mas para poderem comer duas refeições no avião. O que um esfomeado não faz por comida... Há deputados que aproveitam as viagens para se abastecerem de pacotinhos de ‘cacauetes’. São os “esquilos de São Bento”, que armazenam frutos secos para os meses de Inverno. Esta carestia que afecta os deputados tem sido fonte de mal-entendidos. Sempre que um deles dorme uma sesta no plenário e o apodamos de madraço, é possível que ele dormite não por preguiça, mas por fraqueza. Não é inacção, é inanição. Há quantos dias não comerá uma refeição decente? O que explica porque é que o almoço anual de homenagem a Pinto da Costa é sempre muito concorrido: não é falta de vergonha na cara, é falta de açúcar no sangue. Por isso quero gabar aqui a honestidade de Ricardo Gonçalves. Podia recorrer a expedientes, como o seu colega Ricardo Rodrigues, que anda no gamanço, mas não lhe conheço um único episódio de furto. Aliás, não lhe conheço quase nada, admito. Só tinha ouvido falar dele quando Maria José Nogueira Pinto lhe chamou “palhaço”, por causa de uns apartes que fazia durante as intervenções de outros deputados. Informação que agora sei incompleta, claro. Palhaço, sim, mas pobre. O palhaço pobre é, de todos os elementos que compõem uma trupe, um dos meus favoritos. Mais simpático do que o fanfarrão e extremamente pálido palhaço rico, só perde em predilecção para o urso que anda num monociclo. Na altura do incidente, lembro-me de ter ficado a pensar na razão da animosidade entre Ricardo Gonçalves e Nogueira Pinto. Agora, percebo. Nogueira Pinto tinha sido provedora da Santa Casa da Misericórdia e num momento de penúria de Gonçalves deve ter-lhe recusado caridade. Seja como for, Ricardo Gonçalves chamou a atenção para a vida difícil que os deputados "da província" enfrentam na capital. Um problema antigo, que mereceu a reflexão de Camilo Castelo Branco no romance A Queda de Um Anjo. Ali descreve como Calisto Elói de Silos e Benevides de Barbuda, morgado da Agra de Freimas, eleito deputado às cortes, vem de Miranda para se desgraçar em Lisboa. O que acontece ao apaixonar-se por mulheres mais sofisticadas do que a sua mulher e prima Teodora Barbuda de Figueiroa. Ricardo Gonçalves é só mais um da longa lista de deputados rústicos arruinados pelos seus órgãos vitais. Calisto Elói foi traído pelo coração, Ricardo Gonçalves subjugado pelo estômago. O primeiro perdia-se pela curva de um pezinho de donzela, o segundo por um prato de pezinhos de coentrada. Se Camilo fosse vivo, talvez escrevesse uma sequela, dedicada à larica de Ricardo Gonçalves. Chamar-se-ia “A Queda de Um Papo d’ Anjo”. Mas o mais provável é que não tivesse interesse.»
José Diogo Quintela, no suplemento “Pública” do jornal “Público”, de ontem

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