O Último dos Moicanos: Janeiro 2006

sexta-feira, 27 de janeiro de 2006

Tu és...

(Inspirado na música “Como uma ilha” de Pedro Abrunhosa e não só...)
Tu és todas as ilhas, de todos os mares; todos os rios, de todos os lugares. Tu és todos os dias, todos os momentos. Consomem-se os instantes, eternizam-se os pensamentos. Tu és toda a dúvida, razão de toda a incerteza. És o lábio de todo o beijo que desperta o meu desejo, pelo teu corpo, princesa. Tu és todas as noites em todos os quartos; toda a força dos ventos em todas as velas de barcos. Tu és todas as cidades, de todos os países; todas as verdades, todos os sonhos felizes. Tu és como um deus, sem princípio nem fim. Nasceste qual flor do campo, renasces dentro de mim. Prendeste-te no meu peito, como árvore ao chão. Como barco ancorado em terra, como fogo na minha mão. Haverá remédio que cure os delírios da paixão?... De dia, és Sol Poente sobre o mar, à noite, és luz de estrela e luar...
Porque será que te espero, que te penso, que te sonho e que… desespero?...
Apache, Janeiro de 2006

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terça-feira, 24 de janeiro de 2006

"She" - Elvis Costello

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"She May be the face I can't forget. A trace of pleasure or regret May be my treasure or the price I have to pay. She may be the song that summer sings. May be the chill that autumn brings. May be a hundred different things within the measure of a day. She May be the beauty or the beast. May be the famine or the feast. May turn each day into a heaven or a hell. She may be the mirror of my dreams. A smile reflected in a stream. She may not be what she may seem inside her shell. She who always seems so happy in a crowd. Whose eyes can be so private and so proud No one's allowed to see them when they cry. She may be the love that cannot hope to last May come to me from shadows of the past. That I'll remember till the day I die She May be the reason I survive The why and wherefore I'm alive The one I'll care for through the rough and ready years Me I'll take her laughter and her tears And make them all my souvenirs For where she goes I've got to be The meaning of my life is she."
She - Elvis Costello, com a Filarmónica de Liverpool

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quinta-feira, 19 de janeiro de 2006

O Atestado Médico…

Imagine que é professor, que é dia de exame nacional e que, vai ter de fazer uma vigilância. Continue a imaginar... O despertador avariou durante a noite... Ou ficou preso no elevador... Teve, portanto, de faltar à vigilância. Tem falta injustificada. Ora esta coisa de um professor ficar com faltas injustificadas é muito complicada, por isso convém justificá-la. A questão agora é: como justificá-la?
Passemos então à parte divertida.
A única justificação para faltar a uma vigilância é o Atestado Médico. O facto de ficar preso no elevador, ou do despertador avariar, não interessa para nada. Qualquer pessoa com um pouco de bom senso percebe que quem precisa aqui do atestado médico será o despertador ou o elevador... Mas não!... Só uma doença poderá justificar a sua ausência na sala do exame.
Vai ao médico... E, a partir deste momento, a situação deixa de ser divertida para passar a ser hilariante.
Chega-se ao médico com o ar mais saudável deste mundo... Por exemplo, com o sorriso do Jorge Gabriel misturado com o ar rosado do Gabriel Alves e a felicidade do padre Milícias. A partir deste momento mágico, gera-se um fenómeno que só pode ser explicado através de noções básicas da psicopatologia da vida quotidiana. Os mesmos que explicam uma hipnose colectiva em Felgueiras, Gondomar ou Oeiras, os fãs do nazismo ou o sucesso de alguns programas da TVI. O professor sabe que não está doente... O médico sabe que o professor não está doente... O Presidente do Conselho Executivo da escola sabe que o professor não está doente… O Director Regional de Educação sabe que o professor não está doente... A Ministra da Educação sabe que o professor não está doente... Até o próprio legislador, que manda a um professor que fica preso no elevador apresentar um atestado médico, sabe que o professor não está doente.
Ora, num país em que isto acontece, para além do despertador que não toca ou do elevador que fica parado, o único que está doente é o país... Um país assim, onde a mentira é legislada, só pode mesmo ser um país doente.
Vamos lá ver, a mentira em si não é patológica. Até pode ser racional e útil em certas ocasiões. O que já será patológico é o desejo que temos de sermos enganados ou a capacidade para fingirmos que a mentira é verdade. Lá nesse aspecto somos um bom exemplo do que dizia Goebbels: "uma mentira várias vezes repetida transforma-se numa verdade." Já Aristóteles percebia uma coisa muito engraçada: “quando vamos ao teatro, vamos com o desejo e uma predisposição para sermos enganados.” Mas isso é normal. Sabemos bem, depois de termos chorado baba e ranho a ver o "ET", que este é um boneco e que temos de poupar a baba e o ranho para outras ocasiões.
O problema é que em Portugal a ficção se confunde com a realidade. Portugal é ele próprio uma produção fictícia... A começar pela política. Os nossos políticos são, na sua maioria, compulsiva e descaradamente mentirosos. Só que ninguém leva a mal porque já estamos habituados. Aliás, em Portugal é-se penalizado por falar verdade, mesmo que seja por boas razões, o que significa que em Portugal não há boas razões para falar verdade...
Vejamos, se eu, num ambiente formal, disser a uma pessoa que tem uma nódoa na camisa, ela irá levar a mal. Fica ofendida. Se eu digo isso é para a ajudar, para que possa disfarçar a nódoa e não fazer má figura. Mas ela fica zangada comigo só porque eu vi a nódoa, sabe que eu sei que tem a nódoa e porque assumi perante ela que sei que tem a nódoa e que sei que ela sabe que eu sei. Nós, portugueses, adoramos viver enganados, iludidos e achamos normal que assim seja. Por exemplo, lemos revistas sociais e ficamos derretidos ao vermos casais felicíssimos e com vidas de sonho. Pronto, sabemos que aquilo é tudo mentira, que muitos deles divorciam-se ao fim de três meses e que outros vivem um alcoolismo disfarçado. Mas adoramos fingir que aquilo é tudo verdade. Somos pobres, mas queremos viver como os alemães e os franceses. Somos culturalmente ignorantes, mas somos doutores e engenheiros. Fazemos malabarismos e contorcionismos financeiros, mas vamos passar férias a Fortaleza, ou à Suiça. Fazemos estádios caríssimos para dois ou três jogos em 15 dias, temos auto-estradas modernas e europeias apesar de as Portagens nos custarem os olhos da cara... (já para não falar no novo aeroporto na Ota... ou no TGV), mas para ver passar, a seu lado, entulho, lixo, mato por limpar, eucaliptos, floresta queimada, barracões com chapas de zinco e fábricas desactivadas.
Portugal mente compulsivamente. Mente perante si próprio e mente perante o mundo. Claro que não é um professor que falta à vigilância de um exame por ficar preso no elevador, ou o despertador não funcionar, que precisa de um atestado médico. É Portugal que precisa, antes que seja demasiado tarde!…

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segunda-feira, 16 de janeiro de 2006

Em forma de "assim"

Um plágio (mais ou menos descarado) a um post do blog da Eva.
Estranha coisa esta em forma de assim que não se explica mas que se sente. Estranha coisa esta em forma de assim que não se confessa, mas que ao negar se mente. Estranha coisa esta em forma de assim que de tanto calar a alma, em silêncio a proclama. Estranha coisa esta em forma de assim que do fogo faz suor e do frio fez chama. Estranha coisa esta em forma de assim que de tanto se querer partilhar, se esconde e se intimida ao teu olhar, para se mostrar tão ousada em mim. Estranha coisa esta em forma de assim que me estremece o corpo e embarga a voz. Estranha coisa esta em forma de assim que emudece o meu eu, de tanto pensar, nós. Estranha coisa esta em forma de assim, sem espaço, sem tempo, sem princípio ou fim, que no silêncio do teu não teima em ouvir sim.
Apache, Janeiro de 2006

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